Indice del artículo
O USO DO HAICAI NO JORNALISMO DE MILLÔR FERNANDES
1. Introdução
2. Concisão e clareza
3. A informação estética
4. Millôr Fernandes e o haicai
5. Considerações finais
Referências Bibliográficas
Todas las páginas

4. Millôr Fernandes e o haicai

Em 1957, Millôr Fernandes, escritor e jornalista carioca conhecido como “o filósofo do Méier”, começa a publicar haicais na seção de humor intitulada Pif-Paf da extinta revista O Cruzeiro. Nessa época, com 33 anos, quase vinte anos de carreira, Millôr já praticava a filosofia que menciona em sua Bíblia do Caos: “não se escreve com 11 palavras o que se pode escrever com 10 (a não ser que você seja americano e ganhe por palavra; aí a proposição dever ser invertida)” (Millôr, 1994: 7).
O poder de concisão, segundo o autor, talvez tenha surgido pela consciência profissional de não “encher o saco” do leitor. Mas se engana quem pensa que o trabalho da brevidade seja fácil. A escrita rápida exige do autor um trabalho intenso com a língua, e mais ainda quando se trabalha com a concisão e o humor.
Pensando sobre o assunto Paulillo (1980: 97) esclarece que é necessário grande fôlego por parte de Millôr para tal escrita, já que ele se vê obrigado a recorrer a uma série de recursos estilísticos “para provocar e manter o impacto que leva o leitor a rir”, pensar e pensar-se. Dá-se a interação entre a elaboração formal e o efeito humorístico (Fernandes, 1997: 10):

No ai
Do recém-nascido
A cova do pai

O haicai para Millôr (1997: 5), apesar de ter uma forma frágil, quase volátil, que depende “da imagística mais do que qualquer outra poesia, uma implosão, não uma explicitação”, é de grande apelo popular e facilmente se comunica com a audiência. Por isso, buscando trabalhar o lado popular do terceto, o autor não se preocupa com a silabação (5-7-5), com uma estrutura fixa, mas prefere deixar a espontaneidade fluir, falando de políticos, sociedade e natureza com o mesmo lirismo que Bashô retrata a rã.
Percebe-se nos haicais do Guru do Méier a sua afinidade com a escola Danrim-fú, conhecida pelo coloquialismo e humor direto e cru, como salienta Guttilla (2009: 134). A veia satírica também está descaradamente presente, mesmo quando trata de temas pouco tragáveis para o leitor (Fernandes, 1997: 20):
Passeio aflito;
Tantos amigos
Já granito.

A informação estética não se preocupa com a abertura excessiva de significado de uma forma proposta, pelo contrário, pode utilizá-la como fim em si. Mas em determinadas situações, essa abertura pode acarretar no não cumprimento da intenção do informador, que é promover algum tipo de mudança no comportamento do receptor. Para que isso não aconteça, existem alguns recursos que podem facilitar o entendimento da mensagem, como é o caso da utilização do ruído controlado.
Esse tipo de ruído também é conhecido como “ruído branco”, porque ao invés de atrapalhar na transmissão da mensagem, ajuda (Netto, 2007: 156). É colocado um tipo de fundo na forma, para que ela possa ser percebida mais claramente, com menos ambiguidade. Funciona como um coeficiente de segurança, uma espécie de redundância. Em história em quadrinhos, por exemplo, é frequente a utilização de fundos para que se possa contextualizar as ações das personagens.
No caso dos haicais de Millôr, o recurso de periodicidade é utilizado para aumentar a inteligibilidade das mensagens. Isso significa o uso de repetições, propiciando ao leitor elementos necessários para certa previsão das formas transmitidas. Numa leitura consecutiva dos tercetos de Millôr, nota-se as rimas utilizadas e o estado de expectativa que elas provocam. Os três haicais servem de exemplo (Fernandes, 1997: 18, 41, 45):

Usucapião
É contemplar as nuvens
Do próprio chão.  

Meu dinheiro
Vem todo
Do meu tinteiro.

Problemas terrenos:
Quem vive mais
Morre menos?

Nos exemplos, percebe-se a utilização de rimas nos primeiros e terceiros versos, que proporcionam maior previsão na leitura dos haicais de Millôr. O leitor, depois de ler três ou quatro tercetos, nota que o autor utiliza-se de rimas, fazendo com que o receptor aproxime-se do haicai, forma pouco difundida e usual.